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É UM MONTE E UM TANTO É UMA RUMA

 

Exposição individual da artista Natália Quinderé

Curadoria: Fernanda Lopes

 

Abertura: 02 de março de 2024

Encerramento: 04 de maio de 2024

 

Visitação: 02 de março - 04 de maio/2024, quarta à sábado, 12h-17:30h

Aulas de Desenho aberta com artistas convidadas:

Eloá Carvalho - quinta-feira 14/3/2024 19-21h

Helena Lessa - sábado 16/3/2024 11-13h

Júlia Arbex - quinta-feira 11/4/2024 19-21h 

Thais Basilio - sábado 13/4/2024 11-13h

Conversa com artista e curadora: 3 de maio, sexta-feira, 19h

texto curatorial

Enxurrada, acúmulo, amontoado, ajuntamento, concentração, acervo, muitos, multidão, abundância, uma pilha, um montão, um bocado. É UM MONTE E UM TANTO É UMA RUMA já traz no título diferentes formas de falar de acúmulo, agrupamento e, especialmente, de presença. Não só no significado das palavras escolhidas, mas também na maneira como estão escritas. Todas as letras são maiúsculas, o que tira a hierarquia ou ordem gramatical entre elas e na leitura geral, assim como a ausência de sinais gráficos de pontuação, como uma vírgula. Já de início somos colocados a pensar em como ler esse título-obra que reverbera o que vemos já do lado de fora da Abapirá, através das suas janelas voltadas para a rua: cadeiras e mesas de plástico e copos americanos, desses encontrados nos bares vizinhos, estão agrupados, ajuntados, empilhados, de maneira diferente da que costumamos vê-los quando os estamos usando.

A exposição que Natália Quinderé apesenta no Projeto Janelas marca cinco anos de sua pesquisa sobre o corpo. Em 2019 ela foi selecionada para uma bolsa de viagem curatorial, oferecida pelo Instituto Goethe e o Serviço Cultural do Consulado da França. Através desse prêmio de pesquisa, permaneceu diante de uma única obra de arte, durante 4 horas consecutivas, por 15 dias, primeiro na Berlinische Galerie, em Berlim, e depois no Centre Pompidou, em Paris. De volta ao Brasil, a proposta de repetir a experiência em uma instituição carioca, dessa vez em grupo, fez com que ela tivesse que lidar novamente com estranhamentos em relação às normas de visitação, ao funcionamento das equipes e à presença do público. 

Estar tanto tempo diante de uma mesma obra a fez ter que explicar o que estava fazendo, lidando com o desconforto dos outros com essa ação atípica. Fez também com que passasse a reparar no espaço ao redor: como os outros corpos se comportavam ali e como a arquitetura e expografia lidavam com a presença desses corpos. Pensar as políticas de movimento em museus deu início à experiência dos Seis gentes dançam no museu, que Natália define como uma investigação da “coreopolícia” em exposições de arte. A partir de um pensamento ampliado sobre dança e coreografia, as ações coletivas coordenadas por ela tinham como motivação pensar como os corpos devem ou podem se comportar dentro de espaços expositivos de diferentes perfis, como galerias, museus e espaços alternativos.

Acompanhando o desenvolvimento desse processo nos últimos anos, mais do que se dedicar a pensar o corpo em si, a pesquisa de Natália Quinderé se dá na busca de pensar as presenças do corpo no mundo. O corpo dela, o nosso corpo, o corpo das coisas, além de tudo o que há entre eles e que possibilitam, informam e condicionam essas presenças no mundo. Ou nos mundos: social, individual, politico, institucional, etc. As 120 cadeiras, oito mesas e 38 copos que ocupam o espaço da Abapirá foram agrupados pela artista da maneira que estamos vendo. Nada está preso ou fixado. Tudo está posto em equilíbrio, considerando as formas e pesos de cada peça, sozinha ou em conjunto. É um jogo de tentativa e erro, ou um quebra-cabeça, que exige paciência e resistência física. Os acúmulos acabam gerando pequenas deformações, como as colunas que quanto mais altas, mais inclinadas ficam. Essa relação de tensão e fragilidade é permeada pela pergunta “até quando ela aguenta”. Considerando uma possível relação com o pensamento escultórico, ela é a forma, em diálogo com a Coluna Infinita de Brancusi ou as grandes esculturas inclinadas de Richard Serra.

Mas há também uma outra relação, que me chama mais atenção. Pensar essas presenças no espaço como corpos que testam sua capacidade de se manter em unidade e em equilíbrio. Assim como as primeiras performances e vídeo-performances nos anos 1970 , ou ainda as experiências desenvolvidas por Umberto Costa Barros na mesma época, esses corpos são testados em seus limites e condicionamentos. É o corpo como termômetro, unidade de medida e arena onde a ação acontece. Cadeiras, mesas e copos tem, ao longo da história, seus formatos e materiais pensados, entre outras coisas, a partir do que penso ser sua função primordial: ser usado pelo corpo. Normas e regras de ergonomia foram criadas e repensadas para que cada vez mais esse corpo tenha conforto e, claro, possa ser mais produtivo em alguns casos. As cadeiras e mesas que vemos nessa sala são todas alugadas, e isso não é um dado qualquer. Como nossos corpos, elas acabam sendo individualizadas a partir das marcas que podemos ver quando nos detemos a olhar. Assim como nossas rugas e cicatrizes, registram em sua superfície a passagem do tempo e sua passagem pelo mundo.

Essa espécie de teste de resistência que vemos nas peças tridimensionais também se dá no trabalho de Natália Quinderé. Os desenhos, que ocupam as paredes do espaço revelam um o dispêndio de energia que marca seu processo. Com as esculturas-corpos ocupando o espaço, ela escolhe um lugar para sentar e observar. Por uma hora, desenha o que vê e como vê. Quase como um processo investigativo, olha as peças em seus detalhes e diferentes ângulos, mas também olha o espaço e o mundo ao redor através delas. Depois, vinte minutos de descanso, e outra hora, a partir de outro ponto de vista. “Você é como a gente. Fica parada enquanto tudo se move”, disse uma das monitoras do Centre Pompidou para a artista durante seus dias no museu há 5 anos. Aqui, ela nos propõem esse mesmo exercício morandiano: olhar não só para as coisas, mas para o que está entre elas.

 

Fernanda Lopes

Natália Quinderé

@nataliaquindere

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