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Esquerda de Elite XXI ou Burguesia XIX?

Updated: Aug 14


Similaridades entre a elite de bem-estar do século XXI e a burguesia vitoriana do séc. XIX

Lendo o artigo Como o Hipsterismo afasta a Esquerda da Classe Trabalhadora de Gabriel Trigueiro (Revista Época, 2019), refletimos sobre como estamos vivendo o amadurecimento irreparável daquilo que se iniciou com um ideal burguês ainda no século XIX, ponto esse também lançado pelo Jason Tebbe (Jacobin, 2016).

Para se ter uma ideia do que estamos passando, basta lembrar que, com o florescimento das cidades naquele século de revolução industrial, duas situações se formaram potencializando o que hoje vemos como ideal do grupo escolarizado e privilegiado, ainda mais quando este se autoproclama social-consciente: uma pretensa superioridade moral e um esnobismo frente aqueles que não acompanham alguns valores ditos virtuosos.

Assim como a sociedade burguesa vitoriana do século XIX se prendia a uma série de normas para justificar sua importância social frente a uma decadente nobreza e a uma rejeitada plebe, a elite descolada e privilegiada do século XX constrói mitos semelhantes para impor sua relevante singularidade, desde a alimentação vegana até a prática de exercícios físicos destinados à aparência.

O mais curioso, então, é a situação hipócrita que resulta desses dois fatores, pois enquanto proclama suas virtudes e cria um racha com quem não corrobora com estas acaba por estimular uma divisão de classes sociais e uma polarização vertiginosa, as quais, inicialmente, uma elite sócio-consciente com consistência seria radicalmente contra. Uma atitude que, subliminarmente, visa gerar uma dominação social, pois o objetivo final é de se colocar como centro – e guia – da vida político-social e cultural. Mais grave ainda é quando essa pretensa elite se diz de esquerda.

O ponto crucial para relacionarmos ambos está, todavia, na necessidade de que esse exercício de desenvolvimento pessoal por virtudes escolhidas a dedo seja mostrado aos demais, de maneira que fique cristalina a sua conduta em superioridade. Isso, no século XIX, ficou transparente pela construção planejada e financiada pela burguesia dos parques públicos, onde, inclusive, atividades desviantes – brincadeiras infantis e festejos dos menos favorecidos – eram proibidas. As atividades permitidas estavam, justamente, relacionadas ao desfile de aparência desejado por essa nova elite, como caminhadas e passeios em traje adequado. Não foram criados para o lazer, mas para o desfile... Hoje desfila-se a busca pelo aprimoramento físico constante, como se isso revelasse uma dedicação espartana que deveria ser do interesse de todos.

Claro que na atualidade isso fica bem evidente inclusive fora desses espaços contidos, pois o que mais vemos são pessoas em roupas atléticas fazendo as mais variadas e cotidianas atividades: ir ao banco, ao supermercado ou simplesmente levar os filhos ao colégio. A roupa de ginástica e yoga tornou-se um uniforme necessário para demonstrar aos demais um nível de autocondicionamento e disciplina, que visa valorizar o indivíduo frente aos seus pares. O que não fica evidente, mas é essencial, é que essa valorização de um lado inferioriza aqueles que não a seguem, até o ponto em que pode justificar o desmerecimento das classes desfavorecidas ao acesso a escola e meios de saúde. É a ideologia de que aquele que não se cuida, não merece ser cuidado; não se esforça como eu me esforço, não é saudável porque não come vegano, tem sobrepeso porque não faz exercícios e come fast food e comida processada – como se fosse uma opção. Se no século XIX ser gordo era sinal de riqueza, hoje manter-se abaixo do peso ideal serve ao mesmo. Não à toa, os produtos orgânicos e veganos tiveram um boom na produção e vendas. A disciplina alimentar alcança o desejado degrau de status social.

O que deveria chocar, mas não acontece, é que tal condicionamento chega às vias da loucura quando se torna uma obrigação inter-classe. Mães são obrigadas a amamentar seus filhos por longos períodos, alimentá-los organicamente e controlar seu acesso à internet não por seu desejo, mas por temerem a censura de seus pares. Detalhe: tem que trabalhar também, ora pois! Sabe dominação masculina? Multiplica por dez e faz a conta atual...

Criança dessa nova burguesia hipster não brinca, nem fica de bobeira: tem atividade extracurricular.

Conclusão: os adultos dessa nova velha classe expõem o esforço familiar de uma busca eterna por um desenvolvimento físico e mental como a única regra de valor permitida e, com isso, reduzem o apreço com aqueles que não conduzem suas vidas em iguais condições. Disso denota, muitas vezes, a justificativa para a desigualdade e injustiça social. Sabe dominação de classe? Então...

Nada disso é completamente novo, mas vale a pena ser olhado com lupa vez ou outra de maneira a registrar algo que falta nesse mundo desde há dois séculos atrás: consciência de classe e interpretação de texto. O mundo seria bem mais justo com ambos ativos.

Gui Martins Pinheiro, 7 de agosto de 2020.

Os artigos mencionados estão com o respectivo link abaixo:

https://epoca.globo.com/sociedade/artigo-como-hipsterismo-afasta-esquerda-da-classe-trabalhadora-23786331

https://www.jacobinmag.com/2016/10/victorian-values-fitness-organic-wealth-parenthood

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