Débora Mazloum
Exposição: Iridium
Exposição: IRIDIUM
Artista: Débora Mazloum
Curadoria: Mariana Leme
Abertura: 15/11/2025
Encerramento: 10/01/2026
Visitação: quarta-feira à sábado das 12h às 17h
Programação
15/11/2025 às 12h | Abertura
06/12/2025 Conversa com a artista e convidado Luis Alphonso às 16:30h
Créditos
Direção Artística: Bia Monteiro
Produção: Liliane Trindade e Jair do Nascimento
Montagem: Felipe Bardy
Arte Gráfica: Nina Gaul
Arte Janelas: Gouvêa Artes
Fotografia: Carolina Prado Pinto
Imprensa: Junia Azevedo
Molduraria em ferro: Molde, SP.
Molduraria tela: Joelma Reis
Usinagem: H. Valôto
IRIDIUM, ou as dinâmicas invisíveis nos trabalhos de Débora Mazloum
Em janeiro de 1849, a câmara municipal do Rio de Janeiro decidiu que a rua da Praia do peixe, no centro da cidade, seria chamada rua do Mercado,1 local onde hoje está o espaço Abapirá. Os 176 anos que se passaram podem parecer bastante para a medida de uma vida humana, mas é pouco em termos históricos. Além disso, a escala é outra se considerarmos a imensa duração do tempo geológico e as fabulações propostas pela artista Débora Mazloum.
Se o mar foi aterrado, dando lugar à pretensa ordem do mercado, ele continua lá: como memória, como força subterrânea das marés e como projeção de um futuro (talvez não tão distante) em que as águas provavelmente retomarão seu lugar; consequência da “dupla fratura colonial e ambiental da modernidade, que separa a história colonial e a história ambiental do mundo”.2 Está presente também na forma das cerâmicas da artista, que lembram, ao mesmo tempo, fragmentos de corpos celestes e pedras marinhas esculpidas pelas águas, durante milênios.
Ocupando o casarão que ainda guarda algumas de suas características oitocentistas, os trabalhos de Mazloum nos convidam a imaginar dobras e sobreposições de tempos diversos.
Dinâmicas invisíveis — que são constitutivas dos trabalhos — apontam para um passado-presente de disputas, violências e tensões, na medida em que se relacionam diretamente com as antigas paredes coloniais de pedra. Mas sugerem também algo
desconhecido, que se expande na imensidão do cosmos. Talvez como as estrelas que guiaram o caminho de centenas de pessoas que, desde este mesmo lugar, fugiram da escravidão — os jornais anteriores à Abolição dão conta das insistentes invenções de liberdade, ainda que inadvertidamente.3
O irídio, que dá nome à exposição, é um dos metais mais raros da superfície terrestre e muito abundante na composição de meteoritos, embora não haja consenso sobre sua origem. É ao mesmo tempo duro, frágil e muito resistente à corrosão. IRIDIUM (2025), a peça central que
se vê desde a rua, é formada por cerâmicas paramagnéticas de esmaltação mineral, ímãs e tubos de cobre que serpenteiam. A qualidade paramagnética refere-se à formação do campo de atração, apenas, ao passo que aquele de retração (como nos ímãs comuns), está ausente. Assim, a artista cria um magnetismo sutil no lugar, relacionando diversas materialidades e corpos, humanos e não humanos, num mesmo campo.
Outros trabalhos dão um aspecto constelar à mostra, impregnando-se na arquitetura do lugar de maneira discreta. Na série Ultramundo (2025) há pequenas composições de metais e cerâmica, criando diálogos com a pintura de paisagem e extrapolando-a, tanto no espaço físico quanto em relação às paisagens terrenas. Desenhos do campo magnético (2024), por sua vez, são formados por diferentes texturas e qualidades de preto e prateado, característicos das mantas magnéticas, do pó de magnetita, dos ímãs e das granalhas de aço. Já Crosta de fusão (2025) forma uma espécie de desenho no espaço, com hastes de metal e pequenas cerâmicas, associadas pela força de atração.
Em IRIDIUM, o conjunto visível formado pelos trabalhos e pela arquitetura do lugar se sobrepõe ao invisível do magnetismo e o imponderável das vidas terrenas. Mazloum nos convida a alargar a percepção dos sentidos imediatos e fabular novas relações de atração e transformação dos corpos; espécie de equivalência entre as forças divergentes. Nos convida também a imaginar um tempo alargado, possível, inexorável, que algum dia possa transcender toda a dor da fratura colonial.4
Mariana Leme
1 Diário do Rio de Janeiro, ano XXVIII, 27/1/1849, p. 2.
2 FERDINAND, Malcom. Uma ecologia decolonial. Pensar a partir do mundo caribenho. São Paulo: Ubu, 2022, p. 23. Tradução de Letícia Mei, grifos do autor.
3 Uma leitura “a contrapelo” dos anúncios de busca de “fugitivos”, tanto da rua da Praia do peixe quanto da rua do Mercado, revela uma imensa quantidade de histórias sendo reinventadas, no sentido contrário das tentativas institucionais de desumanização.
4 Na última semana de outubro de 2025, enquanto escrevo este texto, o governo do Rio de Janeiro promoveu a mais letal chacina de que se tem notícia, com o assassinato de mais de 120 pessoas. Na verdade, para citar as palavras de Yakuy Tupinambá, “O maior massacre do Rio de Janeiro foi há 525 anos. E nunca terminou”. Oxalá que as pedras do Abapirá — e de Mazloum — possam testemunhar um futuro que seja regido por outras lógicas.















