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Mariana Guimarães

Exposição:Íntima Utopia

Exposição: Íntima Utopia 

Artista: Mariana Guimarães

Curadoria e texto:Michelle Farias Sommer 

 

Abertura: 26/06/2026 - 16 às 20h

Encerramento: 21/08/2026 

Visitação: quarta-feira a sábado das 12h às 17h


 

Programação

26/06/2026 às 16h | Abertura 

04/07/2026 às 11h - Texto-testemunho arte/clínica com Diana Kolker Gabriela Serfaty, Renata Melo. Michelle Sommer 

06/08/2026 às 17h - Vacas em Viva voz - coro com Nina Becker - textos de Ursula Le Guin e Danielle Sivadon

19/08/2026 - 17h - Oposto de fechar é acolher - lançamento da publicação da exposição e conversa em colaboração com artistas do projeto "Mulheres, ecologias e escutas radicais" do Instituto Mesa


 

Créditos

Realização: Abapirá

Direção Artística: Bia Monteiro 

Fotografia: Carolina Amorim

Arte Gráfica: Nina Gaul

Arte Créditos: Gouvêa Artes

Produção: Liliane Trindade e Jair Nascimento

Montagem: Felipe Bardy

Assistência artista: Javiera Asenjo Muñoz

Publicação : Juliana Ronchesel

 

 

 

Íntima Utopia

 

Atos de enunciação: um texto-sonho para uma exposição-testemunho. [Preâmbulo]. Sonho sonhado na noite de 13 para 14 de maio de 2026, às 3h04min. Escuto um sopro de Ursula K. Le Guin, vindo de Terramar - lugar-ciclo de fantasia onde magia, linguagem, equilíbrio e conhecimento operam em conexão. Entre vigília-sono, recordo, no sonho, que adormeci com Le Guin na cabeceira da cama, lendo seu livro amarelo “Não temos tempo a perder - reflexões sobre o que realmente importa” que narra os seus próprios processos de envelhecimento (grifei: “a velhice é para qualquer um que chega lá”). Adormecer é morrer um pouco. A imagem-texto, do livro, registrada na retina, é remanência (pós-imagem) que evoca Le Guin e Terramar e que encontra, aqui, um corpo inundado de suores noturnos que transborda vida em flutuações hormonais marcando, também em mim, a passagem do tempo, com o climatério. Penso, dormindo, em corpos ex-gestantes agora em gestação de outras concepções de vida. Brota, então, o sonho em si. Mariana Guimarães entra em cena. [Parte 01] Mariana e eu estamos sentadas no chão de terra, sob um teto-céu. Fixo meus olhos em nossas mãos. Estamos, ambas, com dedos longos e unhas curtas, esmaltadas-cobertas da cor chamada desejo. DESEJO. Penso, dormindo: nas mãos, o desejo. Em silêncio, sorrimos. [Parte 02] Novamente, as mãos. E um gesto-inscrição: coleta. Vejo, então, no chão, caquinhos: fragmentos de mundo dispostos no chão t/Terra. A mão é concha-recipiente que contém, retém e escoa. Registro, no sonho: escoAR. E uma inundação de vento têmpera-colorida vem. Uma lufada. Voamos. [Parte 03] Juntas, Mariana e eu folheamos livros de história da arte. Não encontramos neles as nossas referências. Um suspiro conjunto: no lamento do a-partamento que não está dado a ver. [Parte 04] Ecoa, do sonho, um pedido: escreva uma carta para fazer escrita, enuncie a geração da vida, um gestar-se para um parto de si, um parto orgásmico nascido da barriga do universo e nutrido com os umbigos do mundo. Uma explosão. Um vulcão. Um big-bang. [Parte 05] Escuto um novo e último sussurro: anote a confluência do céu, no tempo dessa noite. Eis, então, breves linhas aqui. Pesquisas apontam para um céu limiar, uma lua “sugerindo uma espécie de apagamento de superfície das coisas” e um agrupamento, em Áries, que anuncia algo prestes a nascer; “nem conclusão, nem começo: passagem para outras enunciações”. Trinta e nove minutos depois do sonho, a lua minguante, da transformação, nasce: no azimute aproximado de 79°, leste-nordeste, um fino vestígio luminoso aponta para o infinito.

 

 

Íntima Utopia. O íntimo como relação entre interioridade e o mundo, na formação contínua da subjetividade, é menos uma coleção de segredos e mais uma qualidade da experiência no campo de afetos e forças que pedem passagem no e com o corpo para habitar uma outridade, em si. [“a subjetividade é um ato de criação”]. Na criação de condições para que as vidas possam continuar a existir e inventar-se, a utopia é deslocada dos grandes projetos coletivos - associação primeira acoplada ao seu imaginário imediato - para a potência das microinvenções que habitam o cotidiano. Os gestos de (re)aprender a respirar; cair; erguer-se; mover-se e olhar para cima (ver o céu); mover-se e olhar para a t/Terra (e compor com os seres compartilhantes que a habitam); mastigar-devorar; silenciar; pausar, são, todos, ações de reinvenção de modos de fazer, viver e produzir sentido: eis o trabalho de uma vida. [“não existe travessia sem o amparo da criação”]. A criação de territórios existenciais únicos e sensíveis é uma força-suporte para a existência. A unificação entre arte, desejo e clínica na produção de mundos tem a escuta como elo. ESCUTA BEM PRA VOCÊ VÊ. “Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito. É preciso também que haja silêncio dentro da alma”, diz Rubem Alves, em Escutatória. E segue: “É na escuta que o amor começa. E é na não-escuta que ele termina”. Aninhamento para abrir espaços de silêncio, o silêncio de dentro, para escutar o que não ouvimos. [“Um recolhimento fértil e estratégico. Não uma fuga”]. Escutar é auscultar-se. Cultivar imaginações para que outros mundos possam surgir é apostar na criação - também de si - por meio de invenções avessas a modelos de normatização das vidas. Criar é dar à luz a mundos (ainda) não nascidos. É fecundar-se. [“Os monstros desgrudam da parede, descem até o bordado e se mostram”]. Em doze cenas, o encontro de uma mulher com criaturas monstruosas registra o processo de incorporação de sua própria monstruosidade [“Qual a qualidade da monstruosidade?”]. Na composição, resgatam-se os bestiários medievais como matriz para a construção, em adesão ao oculto e aos seres híbridos, de inventários poéticos de corpos, monstros, memórias e modos de vida. [“Alguns monstros devoram as mulheres, algumas mulheres devoram os monstros”]. Eis uma mulher-serpente. O avesso das cenas bordadas contém, também, poesias: estranha entranha; tempo templo. Fabulações de reinventar-SER. [“Para ressecamentos interiores, a umidade estética”]. No término do período reprodutivo (note: o produtivo está contido ali), a isenção da contracepção oferta espaço para toda a concepção de si. Na metamorfose, destecer e remontar a colcha de retalhos e suas narrativas é compor com fragmentos. Um lembrete: tudo o que tende a ser homogêneo, único e totalizante não (nos) totaliza. Veja os rodapés-retalhos: todos são costura. [“Aqui tudo é emenda, celebração da conexão”]. No processo de deixar-se transformar, hesitação. Onde está a voz? Onde está a própria voz? [“A gagueira é voz”]. Com um nó na língua, um fio vermelho e nas mãos o desejo, recita-se um mantra: tecer línguas não monolíngues, operar trancas na linguagem, abrir passagem para coisas até então inauditas e dizê-las; convocar novas e outras palavras e fazê-las voar. Reestruturar a coluna vertebral. [“Na coluna, fabulo uma letra C para cada vértebra e as nomeio: a primeira como corte, a última como continuidade. Essa coluna corte-continuidade sustenta o eixo em movimento, mesmo sob a ação de forças contrárias”]. O que precede a costura é o corte. Parar de sangrar é um chamado para consagrar a vida com outras. Na rotação dos cânones [“Desmame do cânone”] esfacelam-se os absolutos da História - e os mitos heroicos que a atravessam -, abrindo passagem para a construção de referenciais próprios, inclusive artísticos. Nesse movimento, emerge uma linhagem-amparo: um coro de mulheres que enuncia outras práticas de fazer mundos. (Pensando-com: Agnes Martin, Etel Adnan, Ione Saldanha, Eleonore Koch e Mariana Guimarães). São presenças que sustentam e expandem modos de ver, sentir e criar, e presentificam campos sutis de cor em pinturas-bordados, poesias e interioridades [“tons de cal lavado das casas do sertão”]. A cor constrói o espaço e as cores têm história, estórias. Em tramas de vida tecidas por corpos-gestos, eclodem campos cromáticos na composição coletiva de paisagens de si. Em continuidades. [“Fio-ação é um movimento processual de tecer a nós mesmos à medida que tecemos o coletivo”].Devir-coletora. [“A escuta se faz bolsa, a bolsa da ficção de Le Guin”]. Juntas, estamos fixadas na importância da contação da outra estória: não aquela história da jornada do herói, linear e triunfante, mas a estória que não foi contada: a “história vital” que “contém, como uma bolsa, no lugar de heróis, pessoas”*. Com Le Guin estão as estórias da coleta de aveias [“fragmentos que contêm neles mesmos, a imagem-acontecimento, um porvir, estórias de sementes, grãos, passagens do tempo”]. Com Mariana estão as estórias de caquinhos de azulejos, materiais ordinários, restos de moradas, ruínas, coletados em diversos territórios. [“Em um exercício de capturar para não me perder”] estão as convocações para reimaginar e reencantar mundos. [“Incorporar o território desconhecido”]. A escuta, coletada, se faz bolsa: recipiente de guardar estórias. “... neste ventre das coisas por virem a ser e nesta tumba das coisas que forma, nesta estória sem final. (...) ainda há sementes para serem coletadas, e espaço na bolsa das estrelas”*. Bolsa das estrelas que são, aqui, bolsas de crochê com tampas de plástico coletadas com Bento Macedo. [“Coleto em coletividade, contando estórias”]. Do chão à flutuação-sustentação, repousam no ar sacos embrionários de estórias de vidas. [“Cada peça suspensa é um manifesto contra a dureza, um acordo com a suavidade”]. Funda-se um chão, um solo de acolhimento. Um chão todo seu: espaço flutuante, solo-solar escavado por mãos-desejo que constroem para si um lugAR. [“A virada é a transformação da queda em solo”]. A criação. À criação. Há criação.

 

Michelle Farias Sommer junho de 2026.

 

 

Esse texto-sonho-emenda-costura é composto com extratos do texto-testemunho Íntima Utopia, de Mariana Guimarães (2026). Os trechos citados estão marcados em negrito, entre colchetes e aspas e destacados em cinza. * LE GUIN, Ursula. Teoria da Bolsa da Ficção. São Paulo: Editora N-1, 2021.

ABAPIRÁ

 

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Horário de funcionamento: Quarta a sábado, das 12h às 17h

 

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