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TransAlien
Exposição: AN✹MV☪︎RS☥

AN✹MV☪︎RS☥ 

Artista: A TRANSÄLIEN

Curadora: Clarissa Diniz

 

Abertura: 17 de abril de 2026

Encerramento: 12 de junho de 2026

Visitação: quarta-feira a sábado das 12h às 17h


 

Programação

07/04/2026 16 - 20h | Abertura 

06/05/2026 às 18h30 | Provocações poéticas com Lívia Aguiar e convidades

12/06/2025 às 16h30 | Conversa com artista, curadora e convidade

 

Créditos

 

Fotografia: Desna

Realização: Abapirá 

Produção: A TRANSÄLIEN

Montagem: Felipe Bardy

Direção Artística: Bia Monteiro

Arte Gráfica: Nina Gaul

Arte Créditos: Gouvêa Artes

Imprensa: Vicente Negrão Assessoria

 

Apoio: Reviver Centro

A PARTE QUE NÃO TE PERTENCE

Da sabedoria popular vem a imemorial consciência de que nós não escolhemos as máscaras que habitamos. Ao contrário, porque são as máscaras que nos convocam, diz-se que somos por elas escolhidas. 

Posto em exercício em AN✹MV☪︎RS☥, esse princípio ancestral imanta as relações que as indumentárias estabelecem com as camadas — visíveis e invisíveis — do que somos e do que podemos ser, lembrando-nos que uma “máscara nunca pode ser simplesmente uma coisa em meio a outras coisas.” Agindo subjetivamente em nossos corpos e rostidades, elas transfiguram os seres que somos.

Ao centrar a sua primeira exposição individual numa invocação a sermos habitadas por suas indumentárias, A TRANSÄLIEN contorna a tradição egocêntrica que pressupõe que as mostras de artistas são enunciados sobre si ao convocar outras pessoas para uma experiência que — enraizada no poder ontológico das máscaras — sublinha o caráter relacional de sua obra. 

Em AN✹MV☪︎RS☥, o que sobremaneira se afirma não são, portanto, apenas os sentidos intrínsecos à poética dA TRANSÄLIEN, mas sua vocação ético-estética a fazer-se nos interstícios daquilo que não pertence à artista nem a ninguém, como enigmaticamente versou Joaquim Cardozo em Poema (década 1940): 

Eu não quero o teu corpo
Eu não quero a tua alma,
Eu deixarei intato o teu ser a tua pessoa inviolável
Eu quero apenas uma parte neste prazer
A parte que não te pertence.

 

A TRANSÄLIEN

Ao longo da última década, em desobediência ao renovado absolutismo identitário deste momento histórico — em que testemunhamos as mais terríveis tradições supremacistas insuflando suas torpes musculaturas bélicas —, Ana Giselle se fez A TRANSÄLIEN. Uma (id)entidade artística que, assentada sobre o poder das máscaras, cotidianamente experimenta a tecnologia social e estética de simultaneamente revelar-se, ocultar-se e transformar-se através de indumentárias performativas. 

Reivindicando saberes e posições implicadas aos universos transsexuais e extraterrestres, A TRANSÄLIEN recusa o projeto moderno que, visando operar sua hegemonia, disparou sobre os seres humanos a prosaica missiva de coincidirem exclusivamente consigo mesmos. Como esclarecem as palavras da artista, sua performatividade recusa a monotonia de “ser a mesma coisa todos os dias”.

Encontrando filiações não na biopolítica que equipara CPFs, CEPs e CNPJs, mas na vasta e misteriosa vizinhança interplanetária da humanidade, A TRANSÄLIEN acontece como uma existência pós-humana híbrida, evocando entidades cósmicas como suas referências e companheiras. Por entre ruas, transportes, museus e palcos, sua obra se dá como um cotidiano e público ensaio — ontológico, social e estético — de práticas de existência que já acontecem aqui e agora, prodigiosamente abrindo caminhos na contramão do absolutismo identitário de nossa espécie e de seus projetos de poder. 

 

MÁSCARA E SILÊNCIO

A TRANSÄLIEN ressignifica os pressupostos de abjeção historicamente projetados sobre corpos trans, desintegrando valores fundados no imaginário cisgênero. Criar e vestir máscaras e indumentárias é, portanto, um exercício de autonomia que contrapõe e desautoriza qualquer subalternização ontológica. “Entendo a minha pele enquanto uma tela negra”, enuncia a artista, reiterando o corpo como território fértil para a inscrição e reinvenção de sentidos, fazeres e saberes.

Face à violência racial e de gênero e em diálogo com ideias de autodeterminação radical — “é fundamental criar suas próprias categorias, escrever a própria história” —, A TRANSÄLIEN compreende a rua como campo de batalhas e, a performance, como estratégia de sobrevivência. “Só quem vive a experiência do corpo mascarado experimenta certas camadas de violência, risco e liberdade no Brasil”, explica a artista. Nesse contexto, mascarar-se não é proteção. É, antes, um gesto de entrega plena à vida. Posto que performar é um exercício de alteridade, a obra de A TRANSÄLIEN se revela como uma forma de cuidado que se distribui para além de seu próprio corpo, igualmente acolhendo as relações que trava com outras pessoas — de uma simples troca de olhares ao gesto de nos emprestar as suas peles. 

Para além das máscaras, A TRANSÄLIEN dedica-se à criação de indumentárias que operam como pequenos cosmos. Tecidos, miçangas, jóias, penas, espelhos, fragmentos de objetos e outros materiais são reunidos artesanalmente para forjar uma versão transmutada do mundo, incorporando referências do carnaval, das espiritualidades afroindígenas, do teatro, da moda, da música, da festa e da noite. 

Habitadas por A TRANSÄLIEN, as indumentárias inventam um lugar para si mesmas: elas não são fantasias, não são looks, não são produtos, tampouco figurinos. São, antes, o próprio mundo da artista. Sua construção não é metáfora, mas uma prática vestível, respirável, performável e compartilhável — uma verdadeira “mundiação” que acontece desde os corpos e fortalece as suas várias linguagens e sentidos políticos.

Reunidas, articuladas e postas em movimento, dessas indumentárias emergem performances, instalações, fotografias e vídeos que expandem o imaginário cósmico dA TRANSÄLIEN, razão pela qual sua obra é atravessada por respiração, som e silêncio. “The only sound that matters”, afirma a artista no vídeo COSMOVERSE AKSTRA (2020) ao referir-se ao silêncio: matéria invisível que, mesmo que inaudível, vibra na continuidade entre o interior do corpo e a exterioridade do infinito — lembrando-nos que, desde nossa respiração, estamos material e espiritualmente conectados a todas as demais formas de vida. 

 

AN✹MV☪︎RS☥ 

Em paralelo ao exercício cotidiano de fazer corpo, mundos e cosmos, A TRANSÄLIEN tem se dedicado à criação de linguagem. Além dos textos que escreve e publica em seu blog, a artista talha a linguagem para abrir, nela, os espaços necessários às formas de seus próprios sentidos. Ao fazê-lo, reencena, com as palavras e outras iconografias, o mesmo processo performativo e metamórfico vivido em seu corpo-hábitat. 

É desse processo de refundação de si e da linguagem que surge AN✹MV☪︎RS☥, imagem-palavra que dá título a esta exposição e que opera como composição de mais verses (versos) para além do universo que a tradição eurocolonialista nos legou em seu projeto de tudo unificar à sua própria imagem e semelhança.

Ao convocar o prefixo ana– em AN✹MV☪︎RS☥, A TRANSÄLIEN inverte as unívocas e prescritivas direções do universo e nos convida a experimentar nossos próprios cosmos — vizinhos que somos dos sóis, luas e estrelas que coexistem no título da projeto. É nesse horizonte que a exposição constitui-se como uma instalação que reúne máscaras, indumentárias, vídeo, som, esculturas e imagens lenticulares num ambiente imersivo no qual o público pode habitar o cosmos trans-alienígena da artista e, fundamentalmente, contaminar-se por seus pluriversais desdobramentos.

Ao ativar nossas muitas peles, existências e possibilidades de ser, AN✹MV☪︎RS☥ não é somente uma exposição participativa, mas um gesto de partilha das tecnologias sociais e estéticas que, por meio de seu corpo e poética, A TRANSÄLIEN tem construído ao longo da última década. 

Dadivosamente compartilhadas conosco, suas máscaras e indumentárias habitam o Abapirá e desde lá invocam a nossa presença.

MAN✹MV☪︎RS☥V☪︎RS☥

por Clarissa Diniz

ABAPIRÁ

 

Rua do Mercado, 45 – Centro Histórico, Rio de Janeiro – RJ

Horário de funcionamento: Quarta a sábado, das 12h às 17h

 

Agendamento para grupos e visitas mediadas:

Por e-mail ou telefone, com agendamento prévio.

Telefone: (21) 99825 4129

abapira@abapira.art

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