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Isadora Jochims

Exposição:SUB-CRIPTO→LOGIA

Exposição: SUB-CRIPTO→LOGIA

Artista: Isadora Jochims 

Curadoria: Mariana Leme

 

 

Abertura: 12/9/2026 

Encerramento: 4/11/2026

Visitação:  Quarta-feira  à Sábado, 12-17h

 

Programação

Abertura - 12/09/26 às 14h                                           

Conversa com Isadora Jochims, Mariana Leme e Elisa Castro -  12/09/26 às 16h30 

 

Créditos

Realização: Abapirá

Direção Artística: Bia Monteiro

Produção: Lili Trindade e Jair do Nascimento

Montagem: Felipe Bardy

Arte Vinil: Gouvêa Artes

Fotografia Folder: Jean Peixoto

Captação vídeo: Três Marias Produtora


 

 

 

 

 

 

1. Logia

 

Isadora Jochims é médica e artista, o que quer dizer que habita dois sistemas de conhecimento e linguagem fundamentalmente contraditórios (embora suas definições estejam longe de ser auto-evidentes). Em linhas gerais, há, de um lado, o pensamento científico, que pressupõe objetividade na coleta e na interpretação de dados e a reprodutibilidade dos resultados de uma determinada experiência, caso sejam mantidas as condições de controle[1]. Por outro lado, há o pensamento artístico, segundo o qual o ato criador seria nada menos que “o ilimitado, que é nascente, sempre novo”, para citar o enunciado poético de Hélio Oiticica.[2]

 

Jochims, porém, é médica reumatologista, especialidade que procura entender e, na medida do possível, tratar, de dores crônicas e doenças autoimunes, cujas “razões” são largamente desconhecidas pela ciência — e que afetam um número desproporcional de mulheres.

 

Apesar de estar calcada numa lógica racional e pretensamente objetiva, a ciência foi sistematizada por homens cisgênero europeus, à sua imagem e semelhança. Seus corpos foram, portanto, tratados como o ideal normativo: todas as outras variantes seriam menores, derivativas, destituídas de interesse científico, ou mesmo aberrações da espécie. Não por acaso, foi apenas em 2013 que os editores do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (ou DSM-5, na sigla em inglês) suprimiram a expressão “transtorno de identidade de gênero”, que classificava pessoas transexuais como doentes. De maneira semelhante, na medicina do século 19, o termo “histeria” designava uma suposta patologia uterina, sugerindo que as mulheres cisgênero não teriam condições biológicas de serem sujeitos autônomos, que dirá atores políticos. Nesse sentido, a medicina foi — e continua sendo — instrumentalizada também para fins de controle, produzindo violências das mais variadas naturezas.

 

2.Cripto

 

Apropriando-se do crochê, técnica manual de entrelaçamento de fios frequentemente associada ao “feminino” e ao “doméstico”, Jochims cria formas esculturais, incorporando materiais como bucha vegetal, chifres de boi e próteses de silicone explantadas. Tais materiais constituem as entranhas — expostas, descobertas — de seres herméticos que ocupam o espaço.

 

Algumas das obras fazem parte da série Críptides, termo que designa animais e outros seres cuja existência é alegada, mas não comprovada cientificamente. A criptozoologia é considerada hoje uma pseudociência, responsável pela descrição e catalogação de seres fantásticos. Mas há alguns casos bastante reais, em que o conhecimento das populações locais só deixou de ser considerado folclórico depois de os animais serem vistos e descritos por cientistas brancos, como é o caso dos gorilas nativos da região centro-oeste do continente africano (1847), do panda gigante que habita a província chinesa de Sichuan (1869) ou do réptil Tarentola gigas brancoensis (1984).

 

As Críptides de Jochims — para além de existirem alheias ao sistema científico — têm nomes de sintomas, termo da medicina que designa a manifestação exterior de uma determinada doença; indícios que devem ser levados em consideração para o tratamento adequado, mas que nem sempre têm uma explicação objetiva. Febre, a mais popularmente conhecida, é um tripé de bucha, crochê e chifres de boi, em cujo topo há uma protuberância mole, envolta em trançado vermelho-vinho. Pirose, ou azia, é composta por outro chifre, acoplado à parede, do qual pende uma longa rede amarela de fundo preto. Há também uma Erupção, lesão da pele de caráter inflamatório, e um Exsudato, que designa um líquido produzido em reação a danos nos vasos sanguíneos.

 

Na verdade, o que os seres de Isadora Jochims e os sintomas da medicina têm em comum, é o fato de estarem parcialmente ocultos, subterrâneos: daí sua capacidade de não se deixar esquadrinhar, como gostaria o médico-especialista. Assim como as Críptides, outros trabalhos parecem habitar um infra-mundo, prestes a desestabilizar alguns dos preceitos segundo os quais o cientista exemplar organizou (em torno de si) a extraordinária diversidade de seres e corpos que existem nesse planeta. Numa das janelas, pequenos seres feitos também com bucha vegetal e crochê parecem impregnar o espaço, como uma cultura de bactérias pendentes.

 

3.Sub-

 

Em setembro de 1969, vivendo em Londres, Hélio Oiticica escreveu o poema-manifesto S U B T E R R Â N I A; entre outras coisas, uma interessante ferramenta teórica para que se possa pensar as sub-existências — não do ponto de vista da falta, mas de sua emergência criadora:

 

SOU EU     É VOCÊ      É AMÉRICA LATINA        SUL SUB

embaixo da terra     longe do falatório.        dentro de você.  condição única de criação:     do mundo para o Brasil:                       no Brasil → no submundo algo nasce    germina    culmina

ou é fulminado. como fênix nasce da própria cinza(cafono)

→ subterra: romântico. cafono clássico. ortodoxo

folk-pop   consciente.   místico    lírico (+ neo + sub tudo)

[...]

subterrânia é a glorificação do sub — atividade —

homem — mundo — manifestação:      não como detrimento

ou glori-condição → sim:     como consciência para vencer

a super — paranoia—repressão — impotência —

[...]

do sub-sub — da redundância → longe dos olhos →

perto do coração:    ou da cor da ação:     debaixo da terra[3]

 

No submundo algo nasce, germina, culmina: as Críptides e outras obras de Isadora Jochims — Último peito, Fístula, Esporão, Amaurose — parecem desestabilizar a lógica usual que organiza e busca controlar os corpos e suas entranhas, abrindo caminho para a existência de novas criações (e criaturas).

 

Mariana Leme

[1]Sobre a história — controversa, opaca e processual — do pensamento científico no Ocidente, ver KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. São Paulo: Perspectiva, 2020 (1ª ed. 1962).

 

[2]2. OITICICA, Hélio. Diário de 11 de setembro de 1960, in Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p. 23. Organização de Luciano Figueiredo, Lygia Pape e Waly Salomão.

[3]OITICICA, Hélio. “S U B T E R R Â N I A”. In op. cit., p. 125..

ABAPIRÁ

 

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