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Construindo Narrativas como

Dispositivo de Re Existência

Laiza Ferreira

Através de colagens de imagens de arquivo ou garimpadas, intercaladas com solos, folhagens e elementos do Pará, Laiza Ferreira interage com a Rua do Mercado no Projeto Janelas da Abapirá. São duas composições visuais pelas quais a artista busca experimentar o campo da ressignificação e deslocamento de imagens​, de maneira a fazer existir novas possibilidades de linguagem. O trabalho não esconde a precariedade do material colado que se realiza na obra para permitir que o olho se decolonize.

Nos conta Laiza:

“Acesso essas memórias como um campo de força onde crio outras possibilidades de existência. É uma forma de tecer outros caminhos e de compreender as próprias narrativas. Busco instigar o imaginário e nessa fluidez me reconectar com os que me antecedem e ressignificar as minhas dores. Investigo as minhas origens através da fotografia e colagem a partir do deslocamento de imagens.”

Ao montar essas colagens com elementos novos, a artista propõe uma reflexão sobre os efeitos que imagens pré-moldadas não conseguiriam atingir, plenamente, aqueles indivíduos que fogem do estereótipo geral, imposto por uma sociedade de dominação: existem outros espaços para o olhar, mas urge-se treinar aquilo que preparamos para ser visto a um olhar que deseja finalmente ser preenchido. Re Existir, então, resolve importar o observador, que passar pela Rua do Mercado, jogando com o espanto de se deparar com imagens que não lhe são aquelas comumentes vistas em seu percurso pelo centro do Rio. Talvez essa linguagem imagética ressignificada por Laiza possa contribuir para que novos olhares se abram da rua.

Abapirá - Mercado de Textos e Imagens

Rua do Mercado 45, Centro, Rio de Janeiro

 

De 26 de Novembro a 20 de janeiro de 2021

Quando o olhar busca uma linguagem ainda não existente: Laiza Ferreira e a Re Existência

O mirar natural de um observador leigo sobre uma colagem é fixar-se na imagem da figura humana representada, pois buscamos instintivamente um espelho. O reflexo pode, ainda, ser estranho para quem se (re) conhece, pois nos inverte como no conto de Alice, e daí os caminhos ficam irreconhecíveis e confusos. No entanto, quando o semblante do recorte se rompe, ficamos diante de algo novo; algo que importa ao observador um movimento de atração e, às vezes, um eco.

Não é à toa que no processo de construção das colagens expostas na Rua do Mercado para o Projeto Janelas da Abapirá, a artista visual Laiza Ferreira procure fazer uma preliminar escolha dos fundos e não da figura humana para entregar um autoconhecimento. Ali estão solos, cosmos, ervas, plantas, umas coisas tão próximas a qualquer Paraense, como ela.

Pensando nessas obras, o que enxergamos é como a artista escava suas imagens a partir de uma urgência de ressignificação, tentando decolonizar o foco do olhar de quem está treinado a enxergar a partir de uma perspectiva criada com base em uma série de representações que chegaram por um contemplar avesso à identidade representada. Basta olhar os quadros europeus (de Marie Guillemine Benoist a Dirk Valkenburg) que retratam os negros e nativos das colônias dos séculos XVII e XVIII: o corpo de outra cor não-europeia vira objeto sem sujeito.

Diversamente do ​Pierre Menard​ de Borges, não se trata de uma apropriação para re-significar a partir da perspectiva de quem escreve, mas de uma composição de uma linguagem nova, a partir de uma busca de signos visuais que podem, ainda, ser anteriores ao olhar habitual colonizado.

O próprio título tenta de alguma forma subverter uma palavra pré-existente, resistente, ​re existir:​ umapráticacadavezmaisricaemaisprocurada,esserecorteentreexpectativae fundo, como a linguagem de Paulo Lins ou de Conceição Evaristo, no Brasil, da nigeriana Adichie, da moçambicana Chiziane e, ainda, da leitura crítica da sociedade Estadunidense que Baldwin fez nos anos de 1960.

Como recortar imagens pré-constituídas? Muitos artistas têm essa tocada, mas o recorte de Laiza é inverso do que faz o Titus Kaphar em ​Space to Fortget (​ 2014), por exemplo, não sendo um ato de correção, mas de reinvenção.

Alice ao entrar no espelho encontra-se num mundo que não se adequa. Laiza vê que aqui no anteparo do espelho o mundo não se adequa a todos, então opta por romper a imagem para re existir.

Gui Martins Pinheiro, Novembro/2020

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